Aquarius: um filme de memórias, afetos e posicionamentos; confira o artigo

Kalyne Almeida faz um mergulho nas simbologias e na dimensão afetiva do novo longa de Kleber Mendonça Filho

O segundo longa-metragem do cineasta Kleber Mendonça Filho, após sua estreia em Cannes, chega ao Brasil. Sua primeira exibição pública no país, não por acaso, acontece no Cine São Luiz, histórico cinema recifense, sábado, 30, com ingressos esgotados em apenas 40 minutos 

Aquarius é o tipo de filme que mostra um recorte local, mas que revela uma situação que pode ocorrer em qualquer outro lugar. Com a especulação imobiliária acontecendo, uma moradora de um prédio antigo localizado em uma das praias do Recife se vê forçada a vender seu apartamento já que o prédio será demolido para erger lugar um novo edifício grande e moderno. Essa moradora é Clara (Sônia Braga), uma senhora de sessenta e poucos anos de idade que carrega no peito um histórico de superação de um câncer. Acompanhada de outra mulher, Ladjane (Zoraide Coleto), a empregada doméstica que cumpre o papel de apoio no cotidiano da protagonista, Clara se mostra frágil e ao mesmo tempo forte: mulher, mãe, tia, “velhinha”, jovem, viúva.

Embora a obra apresente a situação social e econômica moderna como antagonista, outra mulher, dessa vez, sua filha, Ana Paula (Maeve Jinkings) seria a personificação desse antagonismo, dessa barreira que Clara enfrenta ao demonstrar que apenas quer continuar residindo onde escolheu morar. Ana Paula, que também passa por uma situação difícil em seu casamento, fica dividida entre dar apoio à decisão da mãe e ou tentar convencer que a venda do apartamento seria um bom negócio. “Minha personagem tem um elemento de pressão sobre Clara, porém, minha busca foi de tentar humanizá-la”, ressalta Maeve durante a entrevista coletiva que a equipe do filme deu na tarde da sexta-feira (19).

E, de fato, filme se mostra um estudo sobre o humano e seus confrontos sociais. O humano como servo do progresso onde tem que sair do conforto para obter mais status e dinheiro como se isso fosse o bem-estar. Pode não ser o bem-estar, de fato, mas é uma busca incessante do humano atual tendo como parâmetro países e modelos de vida onde o os valores circulam em torno do dinheiro e status social. Quem representa bem esse papel de modelo de sucesso e negócios bem sucedidos através de construção de prédios de luxo é o ator Humberto Carrão que interpreta Diego, um engenheiro civil recém chegado dos Estados Unidos cheio de “sangue nos olhos”.  O filme conta ainda com as atuações de Irandhir Santos, Fernando Teixeira, Daniel Porpino, que interpreta dois personagens, Arly Arnaud, Buda Lira, Paula de Renor, Júlia Bernat, Zoraide Coleto, Bruno Goya dentre outros.

Cada personagem tem seu desenvolvimento na trama de mais de duas horas, mesmo que possivelmente um ou outro personagem apareça apenas em poucos ou em um único momento.  No entanto, nas duas horas e vinte do filme não é percebida, visto que toda a trama é composta por tempos : os acasos existem sim, porém, não por acaso. Dessa forma, somos convidados a refletir sobre  o nosso cotidiano, sobre as ocupações dos espaços urbanos e o consequente esvaziamento das memórias.

Por fim, Aquarius é um filme de memórias, afetos e posicionamentos. “Dizer não, muitas vezes, por si só, já é um ato político”, ressalta Kleber Mendonça referindo-se ao filme e ao momento político que o Brasil passa atualmente. E de fato, o longa mostra a resistência como recurso para sobrevivência; como recurso para a manutenção da amizade, dos prazeres e das lembranças, tudo isso posto na tela com grande primor técnico e artístico.

 

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