Brilhantemente construído, Aquarius é uma ode a resistência; confira a crítica

Novo filme do cineasta Kleber Mendonça Filho, o longa conquistou a crítica internacional e vem lotando as salas de cinema Brasil afora

Hoje

Trago em meu corpo as marcas do meu tempo

Meu desespero, a vida num momento

A fossa, a fome, a flor, o fim mundo…

Hoje

Trago no olhar imagens distorcidas
Cores, viagens, mãos desconhecidas
Trazem a lua, a rua às minhas mãos…

Ao som de Hoje, de Taiguara, os primeiros minutos de Aquarius apresentam imagens antigas do Recife, quando a cidade ainda não tinha seus espaços urbanos (tão) tomados pelos grandes prédios e empreendimentos que hoje dominam a paisagem do lugar. O diretor Kleber Mendonça Filho faz um passeio nostálgico por um Recife afetivo, perdido no tempo e na memória. As imagens evocam a dimensão da afetividade e, sobretudo, o aspecto humano, a experiência das pessoas com o local onde vivem ao sabor do fluxo temporal, da passagem dos anos e a transformação inarredável que ela traz. A identidade cultural e territorial aparece bem latente, a música de fundo reforça e imprime força poética à sequência.

Aquarius - Barbara Colen como Clara

Clara (Barbara Colen), a protagonista de Aquarius, no início dos anos 1980, na sequência inicial filme. No decorrer da produção, é Sonia Braga quem personifica a personagem central do longo – e domina a cena.

O prólogo do filme segue com um flash back que nos leva a 1980, onde a protagonista Clara jovem (Barbara Colen) e recém curada de um câncer participa da comemoração do aniversário de uma tia que é, ao mesmo tempo, uma celebração pelo término desse ciclo doloroso de enfrentamento da doença. A festa acontece no apartamento de Clara, na praia de Boa Viagem, e reúne amigos e familiares. A passagem de tempo nos conduz de volta ao século XXI e o mesmo apartamento é visto em sua nova configuração, com elementos novos e uma paisagem urbana transformada, mas também com sua essência preservada, mostrando que ali há muita história – e uma memória e identidade afetivas bem demarcadas.

Temos, então, a entrada da figura que irá dominar a ação dramática até o final da projeção: Sonia Braga, a Clara madura, jornalista aposentada que vive sozinha no mesmo apartamento em Boa Viagem, dentro do Edifício Aquarius, que dá nome ao filme. É o último imóvel do bairro que preserva uma arquitetura antiga, diversa dos imponentes e modernos prédios residenciais espalhados por toda a região. Ali, ela tem sua rotina, seu habitat, seus objetos e suas memórias, como a coleção de discos de vinil que guarda e ouve com frequência.

Aquarius - Clara e o toca-discos

Clara (Sonia Braga) e seu toca-discos, onde ouve com frequência a coleção de vinis que foi adquirindo ao longo do tempo. Memória afetiva e identidade preservadas.

Clara está em seu lugar de direito, onde vive há quase quatro décadas; conhece cada pedacinho do seu apartamento, cada recorte memorial e identitário que ele preserva e tem no imóvel um elo afetivo e referencial que se interliga a ela e a sua trajetória de várias formas. Os antagonistas aparecem justamente após essa contextualização de espaço: Seu Geraldo (Fernando Teixeira) e o neto Diego (Humberto Carrão), representantes da Bonfim Engenharia, a construtora que quer demolir o edifício Aquarius e construir no lugar um novo, moderno e imponente empreendimento imobiliário. A empresa adquiriu todos os apartamentos do prédio, restando apenas o de Clara.

O assédio da construtora começa com uma falsa cordialidade, até criar situações de coação – algumas sutis, outras nem tanto. Clara resiste com bravura e perspicácia a elas, até que chegam no auge e o confronto direto se torna inevitável. É uma verdadeira luta de Davi contra Golias, mas ela parte para o ataque. A integridade e a fibra moral da personagem nesse enfrentamento de seus antagonistas é um ponto a se destacar na narrativa. Não há maniqueísmos fáceis, tudo aparece sem vilanias homéricas nem heroísmo olímpico, são personas reais e demasiadamente humanas, com nuances de pensamento e sentimentos muito palatáveis – cada uma em seu contexto e lutando do seu lado da trincheira.

Aquarius é essencialmente cinema, é muito mais exercício de linguagem do cinema que uma produção para consumo – e ao mesmo tempo usa brilhantemente da linguagem audiovisual para contar uma história. Nisso o filme envolve o espectador e faz com que ele adentre na vida e no emocional das suas personagens, arrebatando o coração do público. É uma obra que tem camadas que você vai descobrindo, recursos aplicados à mise-én-scène por uma equipe que compôs o quadro fílmico com alto nível de percepção e de qualidade técnica e artística.

Aquarius - Clara

Clara (Sona Braga), uma mulher que resiste e se recusa a sair do seu lugar de direito – e que não foge dos embates. O filme é construído ao redor dela e é no carisma e na força da sua protagonista que ele ganha seu maior impulso e arrebata o coração do espectador.

Um exemplo bem simples: o zoon-in e zoon-out (quando a câmera dá zoon, se aproximando ou se afastando de uma imagem). Trata-se de um recurso narrativo de estilo que com o tempo caiu em desuso e que, não obstante, é muito bem explorado por Kleber. Mais que isso, é também um elemento visual que ajuda a transmitir parte do simbolismo da história: as personagens são uma espécie de microsmo social, são uma parte de um todo. Quando o plano enquadra Sonia e depois abre para uma panorâmica da cidade do Recife isso fico bastante evidente. É tudo parte de um universo social que se amplia.

Em muitos aspectos o filme é Clara e é de Clara: é na empatia e na força da sua protagonista que a narrativa e o drama de Aquarius são alicerçados. Funciona pela condução primorosa de uma direção que demonstra um forte domínio da narrativa cinematográfica para contar uma história, mas só chega ao ápice porque a performance de Sonia Braga não apenas se apropria do enredo e da essência subjetiva da personagem, mas a expande e a incorpora com um naturalismo que faz com que não se possa dissociar uma da outra. Clara e Sonia se tornaram uma só, numa composição orgânica, ultrassensível, magistral.

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As contradições e idiossincrasias típicas da cultura brasileira estão expressas em Aquarius. Na imagem, Sonia Braga como a protagonista Clara, enfrentando a morosidade e a burocracia em busca de um caminho para resistir.

O papel dos coadjuvantes também merece destaque: Maeve Jinkigns está, mais uma vez, excelente na pele de Ana Paula, a filha-antagonista de Clara que representa com sutilezas e uma boa dose de emoção o conflito ideológico e geracional dentro do seio familiar. Humberto Carrão, como o antagonista-mor, consegue desempenhar com maestria a função de jovem algoz da protagonista, uma composição vigorosa e cheia de humanidade, sem cair em nenhum momento na armadilha dos jargões cênicos e da vilania fácil.

Vale também uma menção honrosa do elenco para Daniel Porpino, Paula de Renor, Arly Arnaud, Carla Ribas, Buda Lira, Julia Bernat, ao veterano Fernando Teixeira e ao ator Irandhir Santos. Barbara Colen está simplesmente esplêndida como a Clara jovem e “passa o bastão” pra Sonia Braga abrilhantar e arrebatar o público. Mesmo fazendo uma participação pequena, eles e elas conseguem singularidade nos momentos em que aparecem em cena e imprimem uma organicidade que enriquece bastante o filme.

Para o momento político que o país atravessa, o filme de Kleber Mendonça Filho é deveras emblemático. Para além disso, é uma obra que traz uma representação sociocultural muito fidedigna do Brasil contemporâneo e suas idiossincrasias e ambivalências mais gritantes. É local e global ao mesmo tempo ao colocar no centro da narrativa os dilemas humanos, tendo o social como pano de fundo.

O diretor Kleber Mendonça Filho, em uma das coletivas de imprensa sobre o filme, disse que às vezes simplesmente dizer não ganha a força de um verdadeiro ato político. É a síntese perfeita para a jornada da sua protagonista, uma mulher que não sucumbe as pressões e faz da sua negativa o sentido de uma ética de vida, dos seus valores mais preciosos. Aquarius é uma ode à resistência, a não abrir mão de suas convicções e ser firme na defesa delas – mas sem jamais perder a ternura.

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