Chocolate é mais um dos belos achados do cinema francês contemporâneo; confira crítica

Filme é destaque na programação do Festival Varilux 2016 e está em cartaz em 50 cidades de todo o Brasil.

Uma cinebiografia francesa da melhor qualidade, feita com apuro visual e técnico e um elenco brilhante em cena, Chocolate é mais um dos belos achados do cinema francês contemporâneo. O filme parte de uma história real para traçar uma crônica sobre as relações de poder e etnoraciais na França a partir de um personagem inusitado e ao mesmo tempo possível dentre do seu tempo histórico.

Protagonizado por Omar Sy, o mesmo de Intocáveis e Samba, que interpreta o papel-título, o filme narra a história do palhaço que ganhou as plateias da França e se tornou o primeiro artista negro “pop star”, isso na primeira década do Século XX. Nascido escravo em Cuba, em 1868, Rafael Padilha foi vendido ainda criança e anos mais tarde conseguiu fugir e imigrar para a Europa, onde começou a se apresentar como uma exótica atração de um pequeno circo.

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A dupla Foottit e Chocolate estreia num pequeno circo de interior e logo alcançam sucesso. A proposta inovadora e ousada para conquista o público.

Instado por George (James Thierrée), o Foottit, um palhaço profissional, a se tornar seu assistente, o protagonista incorpora o Chocolate, seu novo nome artístico para se apresentar no circo e logo a novidade um tanto inusitada à época – dois palhaços em cena, um branco e um negro quando a maior parte da população da França nunca tinha se deparado com alguém dessa etnia – se torna um forte atrativo somado ao talento e o entrosamento da dupla.

O percurso histórico e dramático da personagem de Omar Sy é bem demarcado e as situações são mostradas de modo a refletir o espírito da época, mas sem abrir mão de um olhar crítico –  sem ser panfletário, contudo. James Thierrée também está grandioso em cena e juntos, Chocolate e Foottit, formam uma dupla que funciona nos palcos circenses representados no filme com uma integração notável, fazendo com que quem veja as cenas embarque no humor e no lúdico das pantominas encenadas. A performance dois atores é o ponto alto da produção.

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O entrosamento entre a dupla de palhaços é notório. A sintonia entre os atores Omar Sy e James Thierrée, Chocolate e Foottit bem como suas qualidades dramáticas são o ponto alto do filme.

O recorte racial perpassa todo enredo do filme. O Chocolate personificado pelo artista negro Rafael Padilha é uma representação da visão etnocêntrica eurocentrista acerca dos povos “fora do eixo” e de uma etnia ultra marginalizada. Antes ele é uma espécie de “selvagem exótico” que assusta e causa curiosidade do público provinciano. Depois se converte no parceiro pândego e desastrado do palhaço branco, de quem recebe chutes e é alvo preferencial de gozação.

Após a dupla de palhaços ser contratada por um grande circo e fazer um sucesso estrondoso, Chocolate é aceito nos círculos sociais como artista exótico e alcança um status jamais imaginável a um negro naquela época na França. Tal êxito, no entanto, não faz com ele se nivele aos brancos, gerando alguns atritos e situações controversas, como quando ele é levado preso por não possuir documentação para residir na França.

Cansado de estereótipos ele resolve partir numa empreitada artística no teatro para um projeto ousado e pioneiro: ser o primeiro artista negro a interpretar Otelo na França, o protagonista da peça homônima de Shakespeare. A mudança de paradigma não é bem aceita e ele se vê desterrado, sem o apoio de nenhum dos públicos, teatral ou circense.

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Chocolate (Omar Sy) caracterizado como Otelo, personagem clássico de Shakespeare: a tentativa de romper barreiras e esteriótipos numa época particularmente difícil.

A zona híbrida em que transitava Chocolate, aceito como palhaço co-protagonista mas rejeitado como ator de teatro produziu efeitos drásticos e que são ilustrativos do dilema etnoracial que perpassava a sua história. O vício no jogo e a suscetibilidade às mulheres foram outros elementos que trouxeram mais tensão e recortes dramáticos.

Em seus mais 110 minutos de duração, o filme de Roschdy Zem traça um panorama humano e sociológico sobre uma figura pouco referenciada na historiografia francesa, mas cuja singularidade e pioneirismo perpassou fronteiras e segue até hoje uma história envolvente. A imersão no universo do circo ajuda a balizar atmosfera dramática da produção, trazendo respiros narrativos e uma boa dose de humor e ludicidade. Trata-se, entretanto, de um drama e como tal, esse é um elemento bem demarcado.

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À esquerda os atores James Thierrée e Omar Sy na pele dos palhaços Foottit e Chocolate; à direita, as figuras reais.

Uma história que envolve e que provoca empatia num filme cativante e bem realizado, com atores formidáveis em cena. Peca um pouco pela falta de ousadia no roteiro e por seguir algumas fórmulas prontas, mas é fluido e funciona bem à sua proposta. Um filme notável e prazeroso de se ver.

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