Por Sandro Alves de França

Há exatos 32 anos, em 24 de março de 1984, cinco jovens passaram o sábado cumprindo detenção na escola Shermer e entraram para a história da Sétima Arte: o delinquente, a princesa, o nerd e a desajustada que ninguém se importa. Esses cinco arquétipos típicos  dos jovens americanos estão juntos num dos filmes juvenis mais icônicos que já foram produzidos. Lançado em fevereiro de 1985, marcou toda uma geração e virou clássico.

De todos os filmes já realizados e que tem juventude como tema central esse é um dos mais belos e um dos que melhor conseguiu capturar o espírito juvenil, a essência do que é ser jovem. Do diretor de hits teens do cinema dos anos 80, John Hughes, que dirigiu dentre outros os clássicos do gênero, Curtindo a Vida Adoidado, Gatinhas e Gatões e Mulher Nota 1000, Clube dos Cinco se diferencia pela sensibilidade aflorada para tratar dos dilemas juvenis, é denso, emocional e existencialista ao mesmo tempo em que também consegue ser deliciosamente irreverente e espirituoso, ilustração perfeita da confusão e da ambivalência do jovem.

Clube dos Cinco - 24 de março de 1984

A Escola Shermer, em Shermer, Illinois (EUA). O cenário escolhido pelo diretor John Hughes para Clube dos Cinco. A data, 24 de março de 1984, entrou para a história da Sétima Arte.

Aqui não temos as típicas house parties, pool parties, bailes de formatura ou algo do tipo. O enredo é centrado na história desses cinco jovens que representam arquétipos típicos entre os adolescentes das high schools americanas: o atleta, o delinquente, o CDF e nerd (não necessariamente na mesma ordem), a patricinha e a moça esquisita e neurótica. Eles são obrigados a passar um sábado inteiro juntos na escola para cumprir uma detenção.

Clube dos Cinco - frame 2

Os cinco diferentes, estrangeiros entre si e para o mundo externo, quando confinados à revelia num mesmo espaço, descobrem que afinal, não são tão diferentes assim.

Passado o estranhamento e a hostilidade inicial, os cinco descobrem que tem mais coisas em comum do que imaginam. Incrível como você se enxerga nos cinco: tão diferentes e ao mesmo tempo descobrem tanto em comum; apenas jovens com suas ânsias e seu desejo latente de ser aceito, de pertencer algo – e de ao mesmo tempo ser alguém diferente, assumir uma identidade singular.

Por causar tanta empatia e identificação, por versar de dilemas existenciais de forma informal, como uma conversa de amigos, mas nem por isso menos consistente – muito pelo contrário – o filme se tornou um hit imediato e já nasceu clássico. Teve um impacto enorme para a cultura pop e se tornou um cult, uma forte referência. Pode ser considerado um clássico moderno e vanguardista que continua reverberando até hoje.

A abertura com a canção Don’t You (Forget About Me), balada romântica jovem e com a cadência tipicamente 80’s dá o tom e envolve de imediato. Depois, um prólogo com versos da canção Changes, do ícone David Bowie: “Mas os dias ainda parecem os mesmos /E estas crianças em quem você cuspiu / Enquanto tentam mudar os mundos deles / São imunes as suas consultas /Eles estão perfeitamente conscientes do que estão passando” (tradução livre). A definição cirúrgica na poesia musical de um mestre que transformou em arte o espírito selvagem e em ebulição da juventude em todos os tempos.

“Todos nós somos bizarros, alguns só escondem melhor”. A frase dita pelo atleta, um dos integrantes do quinteto, resume a gênese da subjetividade humana. No início, os cinco cumprem os papéis sociais que são condicionados a representar pelo status quo em que estão inseridos e depois vão subvertendo aos poucos, mostrando nas suas transgressões a real persona de cada um em contraposição aos estereótipos.

Clube dos Cinco - epifania

Os cinco jovens e seu momento de catarse, quando o “jogo da verdade” se transforma no grande desabafo existencial de cada um. Sequência icônica e profundamente emocional.

Durante 20 minutos seguidos, vemos uma espécie de jogo da verdade discursivo, sem regras, sem prendas, apenas a fruição dos sentimentos e emoções reprimidas através de um dialogismo primorosamente construído. Uma das mais esplêndidas sequências já realizadas na história do cinema, sem dúvidas. Mosaico de vivencias que se intersectam. Depois temos um respiro narrativo com expressão dos corpos, que performatizam e gastam sua energia através da música. Alegoria cênica simples, mas irresistivelmente icônica.

Perguntados se seriam iguais aos pais, outra frase-símbolo é dita: “Quando você cresce seu coração morre”. Diagnóstico ferino e corrosivo que prenuncia uma verdade dolorosa – mas não imutável. A juventude está sempre transgredindo e se reinventando e não se pode impor determinismos sofre o futuro de um jovem e seu perfil. O filme, entretanto, reflete a juventude do tempo dele, mas também a juventude atemporal, o espírito jovem intrínseco, inerente a qualquer época. O doce pássaro da juventude, que sempre anseia pelo voo livre. A Vida e seus inarredáveis ciclos.

Clube dos Cinco - frame 11

A epifania, um passo rumo a liberdade. O manifesto do Clube dos Cinco, que metaforiza e dá nome ao filme, é a síntese do espírito libertário que esse clássico enseja. Não há rótulo ou barreira cultural que não possa ser desconstruída. “Não se assuste pessoa, se eu te disser que a vida é boa”.

O manifesto do Clube dos Cinco é e o fecho genial de uma obra-prima, revela o caráter político e anárquico que o filme tem sem ser, no entanto, nem um pouco panfletário. Mantém a irreverência típica do jovem e que perpassa toda a produção. Mais de 30 anos depois, assistindo ao filme, ainda é possível sentir esse espírito. E por isso que se trata de clássico, por isso que jamais envelhece.

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1 comment

  1. Dennison

    Nunca li uma crítica que falasse tão bem desse filme. Interessante é que hoje o perfil do jovem no colegial mudou, existe outra hierarquia, mas as afliçoes e os sentimentos permanecem os mesmos.