Num mundo em crise, cinema de Ken Loach é afirmação política através da arte; confira artigo

Professor Romero Venâncio analisa relações políticas presentes na filmografia do premiado diretor britânico

Num ensaio clássico intitulado “Cinema e política” o crítico inglês Peter Wollen nos faz uma afirmação importante para a compreensão da história do cinema. Afirma que o cinema sempre esteve estreitamente ligado à política desde a sua origem e, consequentemente, o cinema nunca pode abstraído de seu contexto social, econômico e político. Pensamos nessa linha também.

Para nós, cinema é sempre uma forma de indicador político, por mais que queira se eximir de tal procedimento ou por mais comercial que seja. Um filme unicamente comercial é uma forma degradada de fazer política por outros meios. Alienar propositalmente é ainda uma forma de fazer política. Podemos imaginar e fazer do cinema uma arte para a reflexão ou como afirma ainda Wollen referindo-se ao papel do cineasta: “a tarefa do cineasta é precisamente a de propor perguntas mais do que respostas – essa é sempre uma tarefa política”. Concordamos integralmente coma posição do crítico inglês.

Um “bom cinema” é sempre político em sentido pleno do termo. É um cinema posicionado numa determinada sociedade e que sempre nos remete a questões muitas vezes desconsideradas no cotidiano. Mas acreditamos e defendemos algo mais em termos de política: é possível uma posição de classe na forma e no conteúdo da arte cinematográfica. Há um cinema feito a partir de questões centrais que envolvem a luta, as aspirações, a resistência e os avanços da classe trabalhadora em geral e dos pobres da história em particular.

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Cena de “Terra e Liberdade” (1995), de Ken Loach. O filme retrata as relações humanas e sociais tendo como pano de funfo a Revolução Espanhola (1936-1939).

Cineastas como Jean-Luc Godard, Glauber Rocha, Tomás G. Alea, Michael Moore, Pablo Trapero, são exemplos em diversos momentos da história do cinema mundial em que a arte de fazer filmes está solidária com as lutas de uma série de grupos e onde o filme torna-se uma forma de reflexão sobre os rumos da história e um chamado ao pensamento na sua forma radical.

Um cineasta em particular nos chama por demais a atenção no âmbito do cinema político de corte radical. Trata-se do inglês Ken Loach. Nascido em 1936, Loach é fortemente marcado por acontecimentos no campo da esquerda inglesa dos anos 50 e 60, de onde veio a chamada “Nova esquerda britânica”. Essa nova esquerda vinha propondo uma revisão da história a partir da classe operária e sua formação sócio-cultural (E. Thompson) e estava tomando posição nas transformações políticas pelas quais passava a Inglaterra logo após a segunda guerra mundial.

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Em “Uma Canção para Carla), Ken Loach conta a história de um escocês que se apaixona por uma imigrante da Nicarágua, que saiu do país em meio a revolução sandinista contra a ditadura.

Militantes do Partido Comunista inglês e dissidentes estavam organizados em torno da revista New Left Review. Os temas das organizações da classe operária, a vida urbana, a violência juvenil, as brutalidades da vida dos migrantes legais ou “ilegais”, o impacto da televisão, os filmes norte-americanos, um teatro que estava se modernizando e o sindicalismo em crise, eram temas relevantes na vida da nova esquerda.

Os anos 1960 foram anos importantes para um tipo de cinema político feito na Inglaterra. O clássico If, de Lindsay Anderson, inaugura o chamado “Free cinema”, corrente cinematográfica importante no cinema inglês e que teve um papel determinante na formação dos cineastas de esquerda naquele período e no posterior. O Free cinema inglês foi uma forma radical de fazer cinema e que trouxe para o bem comportado filme britânico os ventos da política radical filha dos saudosos anos 60. Ken Loach é filho direto de toda esta movimentação à esquerda vivida pela cultura inglesa em geral e pelo cinema em particular.

O cinema de Loach tem forte influencia da televisão e da forma documental que a TV instiga. Desde o inicio, o diretor inglês demonstra sua simpatia pelos “de baixo” da sociedade inglesa. No belíssimo Kes (1969), tem um garoto pobre de uma periferia de Londres o seu protagonista e na sua fuga das discriminações que sofre numa escola, encontrando refugio e amizade em um falcão. No filme Family life (br: Vida em Família,1972) há uma critica forte as repressões familiares e as consequências no cotidiano de uma jovem que é levada a situações neuróticas e aparece como pano de fundo as consequências da pobreza na psique dos membros da família.

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“Pão e Rosas” (2000) traz como enredo a história de faxineiros em Los Angeles, EUA, que lutam contra uma rotina de trabalho degradante em pleno território do glamour e das celebridades.

Loach segue nas décadas de 1970 e 1980 fazendo filmes em que os protagonistas são figuras a margem da sociedade britânica, são jovens em situação de risco, operários amargurados com a opressão na forma alienada de trabalho, são personagens de comportamento anárquico e muito da vida no submundo inglês. Destacamos três filmes marcantes na carreira de Loach: Uma canção para Carla (1996), Terra e Liberdade (1995) e Pão e Rosas (2000). Acreditamos ser possível caracterizar esses filmes como uma espécie de “trilogia da insubmissão de Ken Loach”.

Percebemos nos três longas citados uma característica marcante: tem nos seus protagonistas a marca da insubmissão, da rebeldia e da radicalidade e ainda mais visível nas histórias que acompanham cada protagonista: a revolução em curso na Nicarágua dos anos 80 ( Uma canção para Carla), a guerra civil espanhola e a participação de um inglês de influência comunista (Terra e Liberdade) e uma greve de faxineiros na moderna Los Angeles americana e a situação dos migrantes latinos (Pão e Rosas).

No filme Uma canção para Carla, Loach tem no protagonista, um motorista de ônibus de Londres, um personagem de forte influencia humanista e de traços anárquicos, que se solidariza com uma migrante “ilegal” oriunda da Nicarágua em processo de revolução. Loach faz da relação amorosa dos personagens o lugar das reflexões políticas a ponto de levá-los a própria Nicarágua em abolição. A luta revolucionária e suas contradições num país periférico e altamente oprimido pelo imperialismo norte-americano passa a ser palco privilegiado para chamar a atenção da Europa para as lutas na América Central. Um dos filmes mais radicais dos anos 80.

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Em “Kes” (1969), um dos seus primeiros filmes, Ken Loach retrata a amizade entre um menino e um falcão, uma metáfora sobre refúgio e liberdade.

Com Terra e Liberdade, Loach chega ao seu filme mais conhecido e premiado internacionalmente. Um filme bem construído no roteiro e com ótimos atores e atrizes, onde trata de um acontecimento histórico de grande importância para as esquerdas no mundo, a saber, a “Revolução espanhola”. A disputa entre anarquistas e comunistas, as paixões arrebatadoras, a iniciação política para um jovem idealista e romântico, a coragem das mulheres na luta contra os fascistas e a covardia de muitos esquerdistas oportunistas são a matéria-prima desse longa importante nos anos 1990, período marcado pelas políticas neoliberais e de grande apatia política.

Loach nos fazia pensar nas razões de ser revolucionário. Foi objeto de longos artigos e acalorados debates à época. Por fim, Pão e Rosas, filme extraordinário em tudo. Na história, uma greve de faxineiros e faxineiras no coração de Los Angeles. Uma obra que tem como protagonistas mulheres e homens latinos vivendo numa situação de opressão bárbara. Loach coloca na tela toda sua verve socialista impenitente e toda sua crítica ao sistema capitalista, forma de produção cruel e impiedosa com os mais pobres. Com trilha sonora do Buena Vista social Club, onde a música nos leva a momentos de lirismo e estranhamento bem dosados para uma leitura política sem melodrama tolo.

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No Festival de Cannes 2016, Ken Loach e seu filme “I, Daniel Blake” saíram com o prêmio máximo, a Palma de Ouro. O cineasta segue engajado politicamente – e premiado.

Com Pão e Rosas, Loach demonstra como se faz um filme político sem panfletarismo ou melodramatismo – e em um momento de apatia política e de bobagens pós-modernas que tanto fez a cabeça de toda uma geração de cineastas e de militantes que se diziam de esquerda. Mas acima de tudo, o cineasta inglês mantém-se firme numa posição humanista e socialista tão importantes para as gerações mais jovens e que ainda abrigam no peito sonhos libertários. Esse ano, recebeu pela segunda vez a Palma de Ouro em Cannes pelo filme I, Daniel Blake, que mostra a história de um sexagenário lutando pela sobrevivência e contra a burocracia do governo britânico. Em tempos de niilismo e desesperança, Loch e seu cinema se posicionam nas trincheiras da resistência através da arte.

 

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