Por Sandro Alves de França

Sobre o enfrentamento da ditadura militar no Sertão da Paraíba nos anos 1960, o filme foi um dos selecionados para a mostra competitiva de curtas-metragens de ficção do Festival Aruanda. A exibição acontecerá na noite deste domingo, dia 13.

Dirigido pelo estudante da UFPB Edmilson Junior, a ideia do curta-metragem foi concebida no I Jabre, laboratório para jovens roteiristas de cidades do interior paraibano. O patrocínio para realiza-lo veio através do Fundo de Incentivo à Cultura – FIC, edital da Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba.

Em 1969, durante o período mais duro do Regime Militar, jovens rapazes do alto Sertão da Paraíba influenciados pelos ideais revolucionários, pela literatura de esquerda e por figuras como Che Guevara, Karl Marx e Lenin, ousaram organizar um levante revolucionário na cidade de Catolé do Rocha. Enfrentando o tradicionalismo da cultura local, o poder do coronelismo que imperava no lugar e as forças de ordem da ditadura, esses rapazes transgrediram e tentaram mudar os rumos da história.

Mais de 40 anos depois esses jovens à época, hoje velhos amigos, se reuniram novamente em Catolé do Rocha para relembrar essa história, falar de suas vivências, visões de mundo, da política, de utopias, sonhos perdidos e perspectivas para o futuro. No plano central dos relatos está a tentativa de organizar um foco de guerrilha armada na Serra do Capim Açú, localizada na zona rural da cidade. Ao serem descobertos, alguns desses jovens foram condenados e presos pelas forças de repressão. No filme, personagens dessa história descrevem algumas situações vivenciadas nesse período.

Praça de Guerra é um filme sobre essa história, a trajetória de 5 amigos: Edmilson Azevedo, Gildásio Fausto, José Salustriano Neto, Luiz Gonzaga e Ubiratã Cortez, que se mistura com a história do Brasil e de uma geração que abraçou uma causa, arriscou a vida e lutou pela liberdade e por um novo modelo de sociedade.

As personagens reais são representantes da “geração vira-mundo”, que viveu de forma intensa os ideais revolucionários de transformação social e, imbuída deles, decidiu contestar as estruturas de poder vigentes. Também são expoentes da contracultura, da qual fazem parte preceitos como a liberação sexual, a rejeição aos valores morais da tradição e o psicodelismo, potencializados pelo uso de entorpecentes e substâncias alucinógenas, algo que é abordado no filme através dos relatos dos protagonistas. Depois das ilusões perdidas, quando “o sonho” da revolução acabou houve o mergulho mais intenso nesse universo, conhecido como “desbunde geral”.

Um mosaico de identidades e vivências fortes, que pulsam e revelam as figuras humanas por trás dos ativistas políticos. Praça de Guerra, que será exibido nessa edição do Aruanda, resgata essas histórias e traz também um olhar de hoje sobre os fatos. O diretor e roteirista, Edmilson Junior, destacou a importância de ver essa história ser contada. “Ter a chance de contar essa história utilizando para isso o recurso do audiovisual foi uma vontade minha desde de que fui apresentado ao tema pela primeira vez, há cerca de seis anos atrás. Me interessei pela história não apenas devido a ideia de transforma-la num filme documentário, mas também devido a sua relevância histórica”, explicou ele.

“Pensando justamente nisso, idealizamos o projeto com o objetivo de distribui-lo em escolas e demais instituições culturais da cidade”, ressaltou Edmilson Junior. O nome do filme é uma referência aos conflitos que ocorriam na cidade, a efervescência política e o clima de guerra provocados pela ditadura e pelo coronelismo e também uma alusão a uma música do cantor Chico César, que definia Catolé do Rocha com essa expressão.

A equipe de produção do filme foi composta pela Extrato de Cinema, produtora de João Pessoa, mais equipe local de Catolé do Rocha. A exibição de Praça de Guerra na programação do 10º Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro está prevista para este domingo, dia 13, após às 18hs, no Cinépolis do Manaíra Shopping. A entrada é franca.

Originalmente publicado na coluna sobre cinema do site Paraíba Já

Deixe um Comentário