O SAG Awards, a premiação do Sindicato dos Atores dos EUA, deu um recado claro em favor da diversidade com os prêmios entregues nesse último sábado, dia 30 de janeiro. Isso foi encarado por alguns analistas e críticos como uma resposta ao Oscar por, pelo segundo ano consecutivo, não ter nenhum ator ou atriz negros entre os indicados nas categorias de papel principal e coadjuvante.

As vitórias de Viola Davis (Melhor Atriz em Série Dramática – How to Get Away With Murder), Idris Elba (Melhor Ator Coadjuvante – Beasts of No Nation) e talvez Uzo Aduba (Melhor Atriz em Série de Comédia – Orange is The New Black) acho que aconteceriam independente da polêmica criada. Já Queen Latifah levar Melhor Atriz em Telefilme ou Minissérie por Bessie acho que acabou tendo um impulso – o que eu achei ótimo porque a considero uma artista sensacional. Orange Is The New Black ganhar Melhor Elenco em Série de Comédia creio que também, em parte, foi impulsionada pela onda pró-diversidade (mais diversidade que o elenco dessa série entre os que concorriam impossível!), mas também teve merecimento, pois tem ótimos atores e atrizes em performances notáveis.

Image #: 34508221 Uzo Aduba (C), of the Netflix series "Orange is the New Black," accepts the award for Outstanding Performance by an Ensemble in a Comedy Series along with her fellow cast members at the 21st annual Screen Actors Guild Awards in Los Angeles, California January 25, 2015. REUTERS/Mario Anzuoni (UNITED STATES - Tags: ENTERTAINMENT TPX IMAGES OF THE DAY) (SAGAWARDS-SHOW) REUTERS /MARIO ANZUONI /LANDOV

A cara da diversidade: elenco da série “Orange is The New Black” é premiado no SAG 2016

Sobre toda a polêmica gerada em torno da ausência de atores negros no Oscar 2016, que teve declarações desastradas – pra dizer o mínimo – da atriz Charlotte Rampling (“boicotar Oscar é racismo contra os brancos“, “talvez os atores negros não merecessem estar na reta final”), do ator e diretor Clint Eastwood (de que tudo se tratava de “choro”, despeito de quem não tinha sido indicado) e até da atriz Julie Delpy (“é melhor ser homem afro-americano que mulher“) que meteu os pés pelas mãos ao embaralhar o debate e falar de outro tema recorrente na Academia: a questão de gênero.

É certo que há uma desvantagem muito evidente em relação ao espaço que os atores negros têm se comparado ao de seus colegas brancos. Isso existe também, em menor proporção, em relação as mulheres. Se for mulher negra então, as dificuldades se somam. De todas as posições manifestas por personalidades a respeito dessa celeuma pública, a mais coerente e sóbria foi a da atriz Viola Davis. “O problema não é o Oscar, o problema está no sistema de se fazer filmes em Hollywood”. Bingo!

Ela própria já havia falado sobre isso no seu emocionante discurso de agradecimento ao ganhar o Emmy 2015 (que pode ser visto completo no vídeo acima) como melhor atriz de drama também pela série How to Get Away With Murder. Foi a primeira atriz negra a vencer na categoria e sua fala fez jus a essa histórica vitória:  “a única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem”. Esse é o ponto, Viola!

A postura dos integrantes do SAG de marcar posição sobre essa polêmica e, de certo modo, rechaçar o Oscar – mesmo que de forma elegante – pode até ser bacana e mostrar uma certa reação, mas nem de longe resolve ou ameniza uma realidade ainda presente na segunda década do Século XXI: a falta de destaque e de oportunidade aos artistas negros.

Ava DuVernay e David Oyelowo

A cineasta Ava DuVernay (à esquerda) e ator David Oyelowo (à direita): a diretora e o protagonista do filme “Selma – Uma Luta pela Igualdade”. Ausências notáveis entre os indicados do Oscar 2015

E mesmo quando ela existe, no caso das grandes premiações, também não está livre de enfrentar as agruras do forte lobby e da concorrência muitas vezes desleal que a indústria e os mega estúdios de Hollywood exercem. Um caso recente e muito claro onde isso ocorreu foi com o filme Selma – Uma Luta pela Igualdade. Um dos melhores filmes de 2015, Selma foi praticamente ignorado pela Academia entre os finalistas do Oscar 2015. Conseguiu apenas duas indicações, melhor filme e melhor canção original, tendo vencido na última pela esplêndida Glory. Ainda assim, um resultado pífio diante da qualidade da obra e pela temática apresentada, com um enredo que dialoga diretamente com história e o ideário cultural dos EUA. Duas ausências entre as indicações foram as mais gritantes nesse caso: a da diretora Ava DuVernay, mulher e negra, que fez uma condução segura, consistente e excepcional do filme e do ator David Oyelowo, que tem uma performance brilhante, impecável, interpretando Martin Luther King.

Esses dois casos desmentem o argumento de que basta haver trabalhos realmente bons e de destaque que os artistas negros são devidamente lembrados nas premiações tradicionais. Esse ano houve a notória ausência entre os indicados na categoria ator coadjuvante de Idris Elba, cuja atuação é muito marcante no filme Beasts of No Nation, uma obra excepcional que foi deliberadamente ignorada pela Academia como retaliação a Netflix. Uma visão tacanha, anacrônica e extremamente enviesada e corporativista sobre o que é ou não considerado cinema.

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O ator Idris Elba em cena do filme “Beasts of no Nation”. Sua performance foi bastante elogiada pela crítica, mas ele ficou de fora das indicações do Oscar 2016

A falta de representação de artistas negros por dois anos seguidos na mais importante premiação de cinema em todo o mundo – e num mundo cada mais diverso e globalizado – é mesmo de se estranhar bastante, de questionar e de protestar também. Para se ter uma ideia, a última vez que isso aconteceu nos últimos 25 anos foi em 1996 – e não se repetiu no ano seguinte.

Mais que escolhas simbólicas e afirmativas num prêmio importante, é necessário um debate profundo sobre o papel do negro na cultura, nas artes e na sociedade de um modo geral, sobre igualdade de oportunidades. Se nem em um setor dito amplo e democrático como o meio artístico há espaço minimamente razoável, condizente com a representação desse segmento social, é porque há algo muito errado. Que se possa refletir e fomentar ações concretas que alterem esse quadro pela base e se dê mais passos adiante em direção a equidade. O mundo contemporâneo pede isso. O senso de equilíbrio e de humanidade também.