Sonia Braga: “Aquarius devolveu meu nome, meu rosto, minha identidade”; confira matéria especial

O filme marca o retorno da atriz veterana num papel de destaque do cinema brasileiro e é uma das grandes estreias do Brasil esse ano

Um conversa franca, direta e descontraída. Foi nessa atmosfera que Aquarius, novo filme de Kleber Mendonça Filho, foi apresentado à imprensa na tarde da última sexta-feira (19), no Recife – a primeira coletiva sobre o longa no Brasil. Um dado curioso é que o encontro foi realizado no auditório de um hotel que fica a poucos metros do edifício Oceania, na praia de Boa Viagem, que serviu de locação principal do filme e é justamente o prédio que dá nome a produção.

Na coletiva estava parte da equipe do filme: o diretor Kleber, a produtora Emilie Lesclaux, a protagonista Sonia Braga, as atrizes Maeve Jinkings, Júlia Bernat, Paula de Renor e Zoraide Coleto, o ator Pedro Queiroz e o diretor de arte Juliano Dornelles. Equipe aliás, foi um termo ressaltado por Sonia ao se referir ao ambiente das filmagens de Aquarius. “Em outros filmes que fiz tinha essa separação entre elenco e equipe. Em Aquarius todo mundo (atores, diretor, equipe técnica) era uma equipe só e trabalhava em conjunto, todo mundo se ajudava e participava do processo”, revelou.

Aquarius foi visto horas antes da coletiva, na cabine de imprensa. O Janela7 esteve na sessão e pode apreciar o filme brasileiro mais comentado do ano. Mostrando na tela um Brasil contemporâneo onde o território está cada vez mais sitiado pela ocupação predatória do mercado imobiliário, o filme mostra as idiossincrasias culturais e a resistência de uma mulher em enfrentar essa lógica e não abrir mão do espaço onde vive – e onde tem situadas a sua memória afetiva e a sua identidade.

Foto equipe de Aquarius

Equipe de Aquarius reunida na coletiva de imprensa realizada no Recife. A protagonista Sonia Braga está no centro da imagem, ao lado do diretor Kleber Mendonça Filho.

O Janela7 abriu a coletiva perguntado à Sonia Braga se, ao ler roteiro de Aquarius, ela havia tido alguma surpresa com o Brasil que é retratado no filme. Aquarius vem sendo considerado a volta dela ao cinema brasileiro num papel de destaque, e como ela mora há vários anos no exterior, sua visão do país poderia ter algum contraste com o quadro social de hoje. Ela respondeu que apesar de viver geograficamente longe, sempre estava em contato com a realidade brasileira.

“Eu não estava no Brasil publicamente – no cinema e na TV – até fiz alguns filmes, alguns curtas interessantes. Quando a gente desaparece na telinha e da tela grande parece que a gente desapareceu do mundo (risos)”, explicou ela.

“Eu tenho casa em Niterói, eu tenho família que mora em Niterói. Então, essa distância que as pessoas pensam que tenho do Brasil na realidade eu não tenho. Eu acompanho o Brasil graças à internet, nos anos 80 era mais difícil.  Hoje eu acordo, ligo o Skype, converso com minha irmã”, complementou.

Sônia fez questão de enfatizar novamente que o que esteve um tempo afastada dela foi a carreira artística no Brasil e não a sua vivência como cidadã, já que estava aqui sempre que podia.

“Esse Brasil que parece tão distante de mim ele na realidade, pra mim como cidadã, como brasileira, ele nunca esteve distante, eu fiz várias coisas. Por exemplo, não sei se vocês souberam, eu estava em Niterói quando desabou o Morro do Bumba, que foi uma grande tragédia no Rio de Janeiro, eu fui uma das primeiras pessoas a me apresentar como voluntária para ajudar”, relembrou.

“Como cidadã eu estava presente quase o tempo todo, agora como atriz é que eu estava afastada – e foi como atriz que essa equipe (de Aquarius) me resgatou para o cinema brasileiro”, reforçou dando destaque a sua inserção no filme de Kleber Mendonça Filho.

Cinema e política

Aquarius repercutiu mundialmente após sua equipe fazer, no tapete vermelho de Cannes, uma denúncia contra o golpe parlamentar que a presidente Dilma vem sofrendo no Brasil: o diretor, os atores e outros membros da equipe do filme ergueram cartazes onde se lia em inglês e em francês: ”Um golpe de estado vem acontecendo no Brasil”, “54 milhões de votos atirados ao fogo”.

Muitas pessoas vem avaliando que há semelhanças entre a história do filme, que retrata uma mulher (Clara, personagem de Sonia Braga) que enfrenta os artimanhas do poder econômico e se recusa a sair do lugar onde vive, com a presidente Dilma, que resiste a deixar um mandato para o qual foi legitimamente eleita e, à despeito de todas as pressões sofridas, não renunciou.

Foro Kleber coletiva Aqurius

O momento político que o país atravessa fez com surgissem especulações de o enredo de Aquarius metaforiza a desfecho da presidente Dilma. Kleber nega a relação de intencionalidade no roteiro, mas diz achar uma grande coincidência o filme ser lançamento justamente nesse fase do desdobramento da crise política.

Kleber negou que exista uma referência intencional. Ele esclareceu que o roteiro do filme foi escrito há três anos, em 2013 e às filmagens aconteceram há pouco mais de um ano, entre agosto e setembro de 2015. “Há um ano atrás eu seria incapaz de imaginar o que está acontecendo (hoje) no Brasil”, reforçou.

O filme, entretanto, tem inerente a ele a problemática política e social através dos dilemas de suas personagens e a relação delas com o espaço urbano, bem como com a cultura do lugar. Uma das opções de Kleber que despertou curiosidade foi “retirar” digitalmente, na pós-produção, os edifícios conhecidos como “torres gêmeas”, que ficam no meio do Recife Antigo, próximas do Marco Zero, e são simbólicos desse apropriação do território das cidades que Aquarius aborda. “O filme é meu e eu faço o que eu quiser”, bradou ele com um tom de seriedade misturado à irreverência, provocando aplausos dos jornalistas.

Sobre a política, o diretor pernambucano disse ainda que às vezes o simples fato dizer não é um verdadeiro ato político, uma forma de resistência, que é justamente a postura de Clara, a protagonista de Aquarius. “Na sociedade, toda vez em que diz ‘não’, você está assumindo um ato político. Clara faz isso e diz não a um padrão que envolve imóveis que determina que o que está velho e vazio tem que ser derrubado. Ela discorda e vai contra isso, e isso passa a ser um ato político”, explicou Kleber.

 Impressões do elenco

Ao lado da protagonista Sônia Braga e do diretor Kleber Mendonça, o elenco de Aquarius destacou a participação no filme e deu alguns detalhes. Para Zoraide Coleto, foi uma grande surpresa saber que iria trabalhar diretamente com Sonia; ela interpreta Ladjane, a empregada doméstica de Clara. “Só faltei morrer quando eu soube que Clara ia ser a Sonia! Me vestia igual a ela nos anos de Dancin’ Days”, revelou ela fazendo referência a novela clássica da TV Globo.

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Maeve Jinkings ao lado de Sonia Braga e Zoraide Coleto. Em Aquarius, ela interpreta a filha de Sonia, que questiona a decisão o posicionamento e os ideias da mãe. (Foto: Edson Lemos).

 

Pedro Queiroz esclareceu que não é ator profissional e que a participação em Aquarius foi sua primeira experiência. O jovem recifense é estudante de cinema e foi estagiário do Cinema de Fundação, dirigido por Kleber Mendonça, que gosta de trabalhar com não-atores e o convidou para fazer o filme. Ele interpreta Tomás, sobrinho de Clara. “É um sobrinho-amigo, ele vê nela uma fagulha de identificação”, explicou.

Maeve Jinkings, que interpreta Ana Paula, a filha-antagonista de Sonia Braga, comparou a experiência de atuar em Aquarius e no longa anterior de Kleber Mendonça, “O Som ao Redor”. Para a atriz a relação entre os dois trabalhos e a composição da personagem é “estranhamente próxima”. “É como se a personagem tivesse nascido dentro de mim”, acrescentou.

“Resgate” de Sonia Braga

No início da coletiva, Sonia Braga falou em resgate ao ser referir a sua participação em Aquarius. Há alguns anos afastada da TV brasileira e com trabalhos esporádicos no exterior, além de algumas pontas no cinema, a atriz tinha sua imagem diluída no imaginário popular e praticamente restrita aos grandes filmes e novelas clássicas em que participou no Brasil nos anos 70 e 80 e algumas produções dos anos 90, como “Tieta” de 1996, protagonizado por Sonia.

Por muitos anos, a falta de convite de cineastas brasileiros foi algo que a incomodou. Ao escolhe-la como protagonista, Kleber Mendonça pôs fim a um hiato de mais de 20 anos e trouxe Sonia de volta aos holofotes do mundo por um filme brasileiro.

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Sonia Braga ao lado de Kleber Mendonça Filho, durante a coletiva de lançamento de Aquarius. O diretor pernambucano foi responsável por trazer Sonia de volta ao cinema brasileiro – e em grande estilo.

“Aquarius devolveu meu nome, meu rosto, minha identidade como essa pessoa que atua no cinema do Brasil”, declarou Sonia. “É como se eu tivesse sido esquecida em Marte e foram lá me resgatar para o cinema brasileiro”, brincou ela.

Sonia também falou sobre o método de trabalho de Kleber, que deixa os atores mais livres para improvisar e dispensa ensaios. Para ela, esse novo jeito de dirigir o elenco no cinema possibilitou uma experiência singular, um verdadeiro deleite artístico. “É como alguém que nunca teve paladar e que um dia prova um pedaço de chocolate e sente o paladar”, comparou.

Perguntada se após, Aquarius, já havia recebido outros convites para filmar no Brasil, Sonia Braga preferiu não dar detalhes. “Tenho outros convites aqui no Brasil, mas como a gente não sabe se vai poder fazer eu não estou divulgando”, justificou.

Aquarius estreia no Brasil no dia 1 de setembro, quando entra em cartaz em mais de 300 salas de cinema de todo país. Após passar por Cannes e ser aclamado pela crítica internacional, o filme já foi distribuído para mais de 60 países e vem circulando em festivais de cinema ao redor do mundo.

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