Por Sandro Alves de França

Crítica – A Pele de Vênus (França, 2013. Direção: Roman Polanski)

Um Polanski em plena forma, como há muito não se via com tanta substância artística e narrativa. Sim, pode-se afirmar sem exagero algum que A Pele de Vênus (França, 2013. Direção Roman Polanski) é uma obra-prima do diretor polonês e um grande momento do cinema contemporâneo. O filme é centrado em duas únicas personagens: Wanda (Emmanuelle Seigner), uma aspirante a atriz aparentemente histriônica e Thomas (Mathieu Amalric), um diretor de teatro neurótico que não encontra o elenco ideal para seu espetáculo.

Thomas tenta adaptar a obra clássica do escritor e jornalista austríaco Leopold von Sacher-Masoch, A Vênus de Peles (1870). Desse livro surgiu o conceito de masoquismo, o prazer na dor vinculado a uma relação amorosa e sexual. O enredo do romance narra a história de um homem que assina um contrato de submissão a uma jovem senhora aristocrata, invertendo os papéis de dominação entre homem e mulher. Depois, há várias reviravoltas e um se torna o outro, dominado vira dominador e vice-versa, num jogo emocional complexo.

O livro de Masoch inspirou o espetáculo teatral do dramaturgo norte-americano David Ives, aclamado no circuito off-Broadway. É ele que Polanski adapta às telas do cinema com Mathieu Amalric e Emmanuelle Seigner nos papéis principais. Ele interpreta o diretor com segurança e sensibilidade e ela personifica magistralmente a atriz desbocada e insistente, que vai se revelando aos poucos. Seigner constrói sua performance com desenvoltura, força e muitas nuances. Está esplêndida em cena.

A música de Alexander Desplat compõe uma parte importante da narrativa – fundamental eu diria – pois num filme que se passa num local fechado com apenas dois personagens interagindo a trilha musical cumpre o papel de balizar parte da dramaticidade. Dos arranjos sombrios, austeros, a grandiloquência sonora embalando as encenações mais viscerais, passando por uma sonoridade delicada e até sutil. A trilha parece conduzida por um maestro e uma orquestra invisíveis, numa ópera intimista, confessional e bastante ousada.

Um jogo psicológico e de cena é montado: as personas cênicas são flutuantes, ora demonstram uma coisa, ora constroem outra. As identidades pulsam e se intersectam. A mise-en-scène é híbrida – teatro e cinema se fundem numa linguagem não-enquadrável rigorosamente nos moldes do cânone.

A proposta que deu fragorosamente errado em Carnage (Reino Unido, 2011. Direção: Roman Polanski) – de unir o gênero teatral e o cinematográfico num elenco reduzido – parece ter ganhado forma primorosamente. Esse filme é como um entremeio artístico, um jogo cênico onde não se sabe onde começa a encenação (dentro da encenação) e o drama do roteiro original que, por sua vez, dialoga com a premissa encenada.

Uma metalinguagem hiper-sofisticada, garimpada pelas mãos de um mestre-artesão da Sétima Arte. Polanski joga com as possibilidades, extrai dos atores uma performance autocentrada no drama da adaptação, que envolve, arrebata, prende a atenção para as 1 hora e 58 minutos que o filme tem. Todo esse jogo de linguagem, combinada a maestria do elenco, resulta numa obra notável sob todos os aspectos. Lançado em 2013, só agora estreou nos cinemas brasileiros.

Há algumas referências sutis a biografia do diretor e as controvérsias por ele enfrentadas, trazidas à figura de Thomas sob as alegações inquisitivas de Wanda. A questão da mulher e do feminino ocupam o plano central dessa incisividade e da narrativa como um todo. Uma tentativa de redenção ou uma crítica inteligente ao acirramento das questões de gênero? Fica a critério do olhar e da percepção de quem vê.

Em tempos de fenômenos populares – e de baixíssima qualidade – como Cinquenta Tons de Cinza é realmente um alento poder apreciar um filme com abordagem da temática sexual e psicológica envolvendo sadomasoquismo e relações de poder entre os gêneros com um verniz tão rebuscado – e sem ser hermético. Uma obra cinematográfica grandiosa em sua simplicidade, do tipo que pode ser definido como artisticamente edificante.

Originalmente publicado na coluna sobre cinema do site Paraíba Já

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